domingo, 1 de maio de 2011


"Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor, pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus…como você me doía! De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme…só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!"*


E eu sei que o alimento dessa vontade é a incerteza. Sem a rotina que destrói qualquer desejo, sem saber se vai demorar mais umas semana ou mais uns anos.
(...)
Ontem dormi o dia inteiro, quis me inpregnar da tua presença, de tudo de ti que ficou no travesseiro, nos lençóis...
Hoje o dia vai ser bom: cinza, solitário e silencioso. Dia de aproveitar as coisas de dentro sem ser interronpido por ninguém.
É também por isso, por essa necessidade de ficar só por tanto tempo, de não querer pessoas por perto, de não querer planejar nada, que esse teu existir eventual na minha vida me faz tão bem.
E daí que todas as vezes que te sinto, te amo por uns cinco minutos, ou meia hora, ou pelo tempo entre um despertar e um cochilo, quando paro pra te ver dormir, toco de leve a tua pele e me estreito junto ao teu corpo. Depois vais embora, ou eu vou, e sinto um alívio tão grande por ter minha vida igoísta a salvo do sufocamento de ser amado por alguém.
Então por essa tua existência perfeita, me dei ao luxo de pensar em ti por um tempo mais longo que o normal, tempo o suficiente para tomar consciência de todas as coisas das quais não me fazes abrir mão, e escrevi um pouco, e isso basta.
Só isso.


*Caio Fernando Abreu

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